Dominique Wolton: “Tenham cuidado com as solidões interativas!”

Dominique Wolton: “Tenham cuidado com as solidões interativas!”

Dominique Wolton: “Tenham cuidado com as solidões interativas!”

Por Rafaela Gaspar

Diretamente da cidade da Luz, Dominique Wolton trouxe o Amor e as relações humanas ao ISEG, no último dia 3 de novembro, no âmbito de uma conferência organizada pelo Institut Français. Com a sua boa disposição, humor e pragmatismo, o Diretor de investigação no CNRS (Centro Nacional de Investigação Científica); Fundador e Diretor da revista internacional Hermès e Presidente do Conselho de Ética Publicitária (ARPP) encheu uma sala de ávidos comunicadores, professores e entusiastas do setor para abordar a temática e problemática da Comunicação – ou a falta dela – nas relações humanas através… das Redes Sociais.

Wolton começou por explicar o seu eterno e incessável fascínio pela compreensão das relações humanas através das teorias da comunicação: hoje vê-se uma rutura na comunicação e na informação, que não começou hoje, mas sim desde o início do seculo XX. O início de uma revolução política que lutava pela liberdade fez com que a informação também começasse a ter maior fluxo entre as pessoas.

No entanto, informação não é comunicação. E Dominique Wolton sublinhou este detalhe ao relembrar que, erradamente, a informação em massa que hoje conhecemos começou a assumir-se como comunicação.

A relação que o ser humano tem com o processo de comunicação durante a sua vida é incrivelmente complexa. Nunca deixando o passado como base de explicação, o orador relembrou a luta dos Homens pela liberdade de comunicação durante quase três séculos e salientou que, agora que atingimos um nível de flexibilidade de comunicação como nunca visto, as relações humanas cruas (relações presenciais com conversas de quem fala, ouve e compreende) parecem ter perdido importância ou terem sido desconsideradas enquanto pilar necessário e vital da vida social. Foi então feito, neste contexto, um aviso geral: “Tenham cuidado com as solidões interativas!”.

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Foi igualmente salientado que as ferramentas interativas das redes sociais que atualmente temos, consciencializam o palestrante em relação às probabilidades de evolução das relações na comunicação humana: quanto mais mensagens são trocadas, maior a informação e maior ainda é o risco de desconfiarmos uns dos outros pela falta de interpretação ou pelo cariz robótico das mensagens interativas. Ora, Wolton personificou essa mesma ideia numa frase: “não são os computadores que se matam entre si, são os seres humanos” – fazendo, neste ponto, um paralelismo com a necessidade de os seres humanos se recordarem da sua própria humanidade no meio da Máquina. A um nível generalista, a comunicação e o trabalho cara-a-cara da relação humana são, segundo o orador, “a solução óbvia, mediante tolerância com o Outro, para o progresso e entendimento de guerras existentes”.

Passada a introdução à importância e detrimento das relações humanas neste novo ciclo de globalizações, já se tem uma visão clara daquilo que Dominique Wolton defende quando fala em “Impacto das Redes Sociais”. Referiu na conferência que não comunicamos verdadeiramente nas redes sociais, apenas nos expressamos. Partilhamos incessantemente pequenos pensamentos e reações pessoais a algo, se bem que, no fundo, o objetivo de todos nós passa pela partilha do AMOR. É o eixo mais importante e sublinhado no discurso: o AMOR. O amor do amigo, do amante, da mãe, do grupo de amigas, do conhecido recente. Por tudo aquilo que representa, pelo que é e pela esperança que dá.

O elemento comum entre a teoria da comunicação humana e o crescimento incrível das redes sociais é o AMOR. A diferenciação é feita na maneira como é partilhado, comunicado e obtido: “pensamos que as redes sociais nos ajudam na obtenção de amor, – amor próprio ou amor do Outro – mas o limite da Rede é definido pelo limite Humano(…) Quanto mais interativos nos tornamos, mais é necessária a introdução da relação humana na equação(…) e mesmo assim damos cada vez mais valor à parte técnica da coisa!”.

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Faça-se aqui parênteses para referenciar uma falácia da evolução humana na geração social, falada em muitas áreas, que a tecnologia hoje toca: o ser Humano não tem a mesma capacidade de rapidez de aprendizagem que as Máquinas. No entanto, a complexidade da técnica nunca será tão complexa quanto a psicologia do próprio ser Humano. Ao contrário dos restantes, Wolton vê esta falácia de uma perspetiva de trunfo.

Já para o fim do serão, começa-se a concluir que o ser humano esqueceu-se de Conviver e Comunicar com o próximo a não ser a partir de redes sociais ou meios digitais: é definido, então, o desafio do Século como o de “ensinar a humanidade a aprender a co-habitação na Diversidade” uma vez que “aceita-se a diversidade ecológica como uma preocupação, mas já não se respeita verdadeiramente a diversidade Humana”.

 

Pensamentos finais de resposta a algumas questões:

  • A comunicação é transversal a todas as nossas atividades. É uma questão antropológica.
  • “Ser-se Digital e ser-se Humano é antinómico” – ainda hoje, mediante assuntos que são importantes para nós, escolhemos trata-los em pessoa e cara a cara ao invés de mandar uma mensagem. Assim, quanto menos importante é a informação, mais disseminada ela é!
  • Sobre a problemática do narcisismo atual: hoje em dia há um problema geral de pressão de imagem que mascara um problema ainda maior de identidade própria.
  • Informação VS Conhecimento: temos ao dispor toda e qualquer informação, no entanto, nem sempre temos o Conhecimento para descodificar essa informação imensa. Mais ainda, quanto mais rápida a informação é, mais tendência temos para achar que a assimilamos com a mesma rapidez – o que não é certo.
  • A internet é quase Anti-Diversidade, ela agrega pessoas que têm conhecimentos e interesses em comum. Concluindo que também a Internet está condicionada pela lei da procura-oferta.

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